Há uma frase que atormenta os pareceristas que analisam propostas para editais de Cultura: “o papel aceita tudo!”
É uma frase tão antiga – quanto atual – que remonta ao tempo em que se mandava os projetos para editais – fisicamente, e em papel – pelos Correios. Num tempo da folclórica agência dos Correios no Shopping Rio Sul, que fechava às 22h, onde no último dia de prazo para envio das propostas, momentos antes de fechar, era preciso distribuir senhas na porta, porque não cabia mais ninguém dentro da loja.
E por que a frase atormentava os pareceristas?
Porque lendo a apresentação da proposta não havia dúvidas de que se estava diante de uma ideia genial, de um projeto fantástico. Mas bastava seguir na leitura para se inaugurar um trabalhoso exercício de fazer caber a maravilhosa apresentação do projeto dentro do plano de trabalho, do cronograma, da planilha de custos… porque a ideia era tão boa e tão bem apresentada que era difícil de acreditar que o papel pudesse ter aceitado aquele projeto, que após uma investigação mais cuidadosa se mostrava inviável.
Com o passar do tempo, não só o papel foi substituído pela entrega virtual das propostas em editais, como as pessoas foram se profissionalizando e se instrumentalizando para que as apresentações, ainda que mirabolantes, coubessem como uma luva nos planos de trabalho, cronogramas, planilhas de custos… nivelando tanto as propostas, que os resultados dos editais estão cada dia mais parecidos com os resultados dos desfiles de Escolas de Samba: 10; 9,99; 9,98…
Agora, não mais no papel, mas na telinha, separar/distinguir entre realidade e ficção, fica mais difícil para os pareceristas. E o pior! Mais grave, ainda: para quem escreve, também!
A tentação de criar uma proposta imbatível nos eleva à condição de literatos na escrita das apresentações, arquitetos na construção de cronogramas, economistas na confecção das planilhas de custos… e, talvez, por isso, haja uma repetição tão frequente de CNPJs nos primeiros lugares dos resultados dos Editais de um modo geral: aprendemos a enganar e nos enganarmos. E quem aprendeu, vai estar sempre à frente, escrevendo o que o parecerista quer ler.
Outra frase muito conhecida dos mais velhos era: “o castigo vem a cavalo”, que era o meio mais rápido de transporte, quando o ditado foi criado.
Hoje, nos Editais com propostas aceitas indevidamente pela telinha, o castigo vem acima da velocidade da luz!
Nosso projeto do Pontão Gestão Viva 3.0 era um desses projetos de literatos, arquitetos, economistas… de tão audacioso nas promessas de entregas com excelência de qualidade. Nós queríamos muito acreditar que tínhamos atingido a perfeição com a nossa proposta. E a pontuação que obtivemos no Edital reforçava essa crença, mostrando que tínhamos razão de pensar assim: em 100 pontos máximo de pontuação, ficamos com 102, por força de uma bonificação prevista no Edital.
A ideia, tão simples quanto genial, era a constatação de que uma Instituição em Niterói, teria muita dificuldade de conversar com Municípios nos extremos ou interior profundo do Estado. Daí a ideia de dividir essa tarefa com mais dez Pontos de Cultura que se destacavam na Rede Cultura Viva RJ, um em cada uma das dez Regiões do Estado, no Mapa da Cultura.
Obviamente, que nem tudo foram flores. Tivemos alguns problemas. Algumas dificuldades. Mas o projeto estava tão bem desenhado, que favorecia a correção de curso, sem a necessidade de trocar pneu com o carro andando. Os ajustes eram cirúrgicos. Pontuais e progressivos. Contínuos.
A um ponto de entendermos, no exercício prático do cumprimento do nosso plano de trabalho, que tínhamos acertado quando imaginamos que seria muito mais fácil um Ponto em Macaé, por exemplo, conversar com Campos, São Jesus do Itabapoana, São João da Barra, do que o Campus Avançado em Niterói.
Mas, Vassouras, por exemplo, conversava com Comendador Levy Gasparian, Areal, Sapucaia… mas não falava com a Mariana do artesanato de Levy, nem com o Nivaldo da Capoeira de Areal, ou Sebastião, poeta de Sapucaia…
E sentimos que era indispensável ajustar o projeto para chegarmos aos trabalhadores da Cultura de todo o Estado, para dar qualidade à exigência de mapeamento, articulação e formação (as três metas exigidas pelo Edital dos Pontões) a partir de uma mostra de algo próximo a 2.500 agentes culturais, da sociedade e das gestões públicas, dos 92 municípios do Estado, num diálogo direto, olho no olho, dialogando em rodas de conversas por mais de duas horas, colhendo informações que estão sendo sistematizadas.
Tudo isso, somado a um conjunto de outras iniciativas/entregas, como as 10 Micro TEIAS, uma em cada região, mais 10 caravanas de Formação, 21 oficinas on-line de duas horas, que nos levaram a dialogar pessoalmente com mais uns 3.000 agentes culturais do Estado, a confecção de 10 cartilhas…
É o resultado concreto que nos autoriza a afirmar que o Pontão Gestão Viva 3.0 é “UMA PROSTA QUE SE MATERIALIZOU!”